segunda-feira, 2 de abril de 2012

Demônios


          
“É possível dizer que todos nós somos excêntricos, já que colecionamos uma série de peculiaridades existentes apenas em cada um de nós. Duas pessoas diferentes podem ter peculiaridades parecidas, mas nunca serão, em hipótese alguma, iguais.”

Foi essa a última anotação no diário de Harry naquela noite, funcionário público aposentado com um sério talento em observar o comportamento humano e portador de estranhas manias, como deixar o conforto de seu minúsculo apartamento no subúrbio da cidade para se hospedar em algum hotel durante uma semana ou mais.

Evidentemente, já vira os mais variados tipos de hotéis da cidade, mas nunca algum como aquele, que era afastado do centro urbano, já na saída da metrópole. “Hotel Harmonia” era o que dizia o letreiro luminoso. O lugar estava em silêncio, quando Harry surgiu à frente do recepcionista, que deu um sorriso de orelha a orelha. Era provavelmente a primeira alma humana que via em meses. Harry soube então que estava sozinho no hotel. Em cima do balcão, uma TV. “Acharam o corpo, mas não a cabeça; fizeram o velório com o corpo decepado, antes que começasse a necrosar.” “Hotel Agonia”, pensou Harry em resposta à notícia do telejornal.

“Hotel Agonia, Hotel Agonia”, sua mente foi gritando até chegar a seu quarto; lá alcançou com a mão trêmula um frasco de calmantes no fundo da mala. Engoliu dois comprimidos com água da torneira. Ficou deitado na cama esperando o placebo fazer efeito. Ficou lá até que a imagem da viúva chorando sobre o corpo decepado do marido não o assustasse mais. “E se colocassem uma foto 3x4 do defunto no lugar da cabeça?”. Harry julgou uma boa idéia.

Levantou cambaleando da cama, o remédio o deixara mais tonto do que o de costume. Da sacada do seu quarto pode avistar os montes que se erguiam a sua frente. No meio de todo aquele verde, os armazéns da cooperativa. “Natureza e progresso podem coexistir, há espaço o bastante para todos no universo, esse grande monte de nada, e talvez o nada seja maior que todo o resto.”

Voltou para dentro. Deitou na cama pela segunda vez. O lustre no teto girava em sentido horário. Harry sentia ânsia de vômito.

Abriu a gaveta da cômoda, lá dentro uma bíblia repousava. Colocou o frasco de placebo em cima do livro sagrado. “Vício e Religião. Dois pastores irmãos que conduzem rebanhos cegos”. Harry já se sentia sóbrio.

Dormiu e acordou diversas vezes. 3:34 da madrugada foi quando julgou que uma caminhada pela vizinhança não lhe faria mal.

Caminhou pela noite até encontrar, sentado num ponto de ônibus, um homem de uns cinqüenta anos, fumando um cigarro e encarando um outdoor que dizia em letras garrafais: “Aproveite um grande hábito.” Harry se sentou ao seu lado e ficou em silêncio, encarando o mesmo outdoor.

O homem começou a falar: “Hoje as pessoas vivem pobres e morrem ricas, quando deveria ser o contrário, viverem ricas e morrerem pobres. Trabalham a vida inteira para morrerem com algum luxo. Pra que isso? Não há honra nenhuma na morte, nem um motivo para se alegrar ou celebrar, a morte é tão ordinária que acontece com todos, não há nada de especial nisso. Estão deixando de aproveitar a vida para se preocuparem com a morte...”

O homem continuou falando, Harry se levantou e pegou o caminho de volta para o hotel.

“Sabe o que me deixa preocupado? Esses jovens mansos de hoje em dia, que têm uma facilidade imensa em escolher o que querem para seu próprio futuro, esses jovens seguros de si, responsáveis, dedicados, felizes, satisfeitos. Não acho que essas sejam qualidades, pelo menos não nessa idade. Acho mais favorável sermos inquietos, insatisfeitos, cheios de tédio e preocupações, e por que não dizer tristes? Enfim, acho melhor criarmos nossos demônios pessoais o quanto antes, dessa maneira os matamos mais cedo e levamos a experiência vivida com esses demônios pala fase adulta.”

Aquela foi a nova última anotação no diário de Harry naquela madrugada, quando seu relógio marcava 5:14 da manhã.

sábado, 31 de março de 2012

A Máquina


             Olivetti, lexicon 80... lexicon,parece nome de remédio, mas na verdade é nome de máquina de escrever.Uma que foi achada por acaso, consertada e, graças à falta de prática do redator, foi muito mal usada para fazer o rascunho desse texto.  
            
             Mas deixarei o redator de lado para falar do que realmente importa, a máquina de escrever, é claro. Velha como a democracia e pesada como pornografia infantil, essa é uma feia relíquia toda empoeirada e cheirando a mofo.
             
             Se fosse uma pessoa, essa máquina seria um velho de uns 80 anos, daqueles que não tomam banho, meio esclerosado e que insiste que o socialismo salvou Cuba da miséria. Não que eu deteste a máquina de escrever, pelo contrário, adoro figuras excêntricas, mas o que eu realmente gosto nela é o som das teclas: de repente é como se você estivesse no meio de um tiroteio, sempre concentrado para atingir e derrubar as letras certas; quando sua munição acaba você ouve um simpático “trim”, que lhe avisa que arma deve ser carregada novamente e novas letras precisam ser abatidas, uma por uma em um ritmo frenético. Após serem derrubadas, as letras são mandadas para sepulturas coletivas, ou seja, as palavras, encontrando aí o local de seu eterno descanso.
            
            A máquina de escrever é portanto uma grande máquina de guerra, impiedosa e barulhenta, imponente mas ultrapassada, mas que tem um charme que o tempo não conseguiu vencer.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Insônia pt.1


O telefone tocou às 2:21 da manhã. Essa hora só pode ser engano ou tragédia, mas não daquela vez.A voz do outro lado da linha apenas disse o seguinte: “perdi o sono”, e resposta foi um simples “está bem”.

Eles se conheciam há mais de dez anos e sempre foram amigos e vizinhos. O combinado,de uns tempos para cá,tempos em que a insônia era cada vez mais constante,era o de que se um perdesse o sono,ligaria para o outro,não importava a hora.

Andy,cumprindo o juramento,se levantou rapidamente da cama. Foi até a cozinha e tomou um pouco de coca cola. Quando abriu a porta de seu apartamento, Jimmy já o esperava encostado na porta de sua casa. O corredor que separava as duas portas era tão estreito que se dois homens decidissem caminhar lá,ombro a ombro,enfrentariam muito aperto. Uma única luz amarela iluminava o corredor,fazendo com que nele desfilassem sombras e penumbras produzidas pelos corpos dos dois amigos. O silêncio naquele ambiente era tétrico,interrompido eventualmente apenas por um carro que passava em alta velocidade ou alguma sirene distante.

“Quer fazer o quê, Andy?

“Vamos ao posto. A loja de conveniência do posto é um oásis na madrugada.”
 
“Hoje ele tá inspirado”, pensou Jimmy consigo mesmo.

Desceram as escadas. Primeiro andar. Térreo. Jimmy abriu a pesada porta de ferro que se fechou com um estrondo atrás deles. Já estavam na rua.

“Mesmo com todo aquele silêncio,mesmo sem que um carro não passasse há horas por aquela rua,o semáforo ainda funciona,alternando suas luzes para ninguém.Mesmo com todos na cidade dormindo,mesmo que as luzes de todos os apartamentos estejam apagadas,a metrópole ainda funciona,ela nunca falha,está sempre lá, trabalhando cegamente,observando quem dorme e quem vagueia pelas ruas. Será que existe um humano por trás disso tudo, uma única pessoa que controla a cidade, seus semáforos e tudo mais, uma pessoa que portanto, não dorme nunca, como um Atlas pós moderno, que tem a função de  garantir que a cidade nunca pare de pulsar?”

“Que idéia estranha”, foi o único comentário de Jimmy diante das indagações de Andy antes que eles entrassem no oásis da madrugada.

Na loja de conveniência o quadro se agravava. De um total de seis lâmpadas,apenas duas funcionavam. “Mas o que diabos acontece com essas lâmpadas?”. Um homem dormia com a cabeça apoiada em uma mesinha redonda e havia muitas garrafas de cerveja ao seu lado. Do lado de fora dois irmãos gêmeos conversavam,estranhamente vestiam as mesmas roupas,e mais estranhamente ainda,um era alto,de uns dois metros e meio de altura,o outro não passava do um metro e trinta. Se a loja era um oásis na madrugada,era também um freak show gratuito.

“O que você quer?”

“O que você quer,Andy?!”. A alteração na voz de Jimmy fez os gêmeos olharem para eles.

“Só um café,obrigado. Muito leite e muito açúcar”. Quem acordasse o outro tinha que pagar por tudo,era esse o combinado.

“Será que insônia é contagioso, Andy?”

“Não, mas se duas pessoas passam muito tempo juntas um organismo sincroniza com o outro. Tipo aquelas mulheres que moram juntas e menstruam no mesmo dia.”

“Então elas tem TPM juntas também?”

“Acho que sim.”

“Ser lésbica deve ser uma merda,então. TPM em dobro.”

“Prazer em dobro também.”

Terminado o café de um e o refrigerante do outro foram dar uma volta pela noite. Foi então que entre as baforadas de um cigarro compartilhado por ambos viram o sol nascendo.

“Enquanto todos na cidade estão aproveitando suas últimas horas de sono,nós estamos aqui,acordados,privilegiados,vendo um dia morrer e o outro nascer. Vendo ainda a luz natural  engolir as luzes artificiais, ou seria simplesmente pegar o seu lugar de direito? Vemos aqui,enquanto os outros dormem, um ciclo se iniciando,um embrião se desenvolvendo,enquanto os outros dormem,e nós aqui,acordados,com insônia outra vez.”

Primeiro post

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